Rochas na baía ao pôr do sol, Praia de Bom Abrigo

O texto que eu não conseguia encontrar

Em 2011 li uma paródia diagnóstica que me atravessou e que eu ainda não sabia nomear.

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Em 2011, li um texto que me atravessou, mas que eu ainda não sabia nomear.

Na época, eu era uma mãe atípica tentando sobreviver à falta de compreensão dos profissionais, à violência sutil — e às vezes nem tão sutil assim — de uma clínica que dizia olhar para o meu filho, mas muitas vezes não o via. Meu filho já tinha diagnóstico, eu já vivia o autismo por dentro da vida, mas eu ainda estava muito distante do meu próprio diagnóstico. Eu ainda não tinha palavras suficientes para compreender o que aquele texto estava fazendo comigo.

Só hoje consegui recuperá-lo.

E relê-lo agora foi quase um choque de reconhecimento.

O texto em questão é uma paródia diagnóstica: imita a linguagem dos manuais psiquiátricos e descreve a neurotipicidade como se fosse um transtorno do desenvolvimento. Em vez de olhar o autismo como desvio, ele desloca o foco e transforma em "sintoma" aquilo que, na norma social, costuma passar como natural, desejável ou simplesmente humano.

Quando li isso pela primeira vez, eu não tinha ainda o repertório conceitual que tenho hoje. Eu sentia a força do gesto, mas não compreendia inteiramente a sua radicalidade. Hoje compreendo. E talvez justamente por isso o efeito tenha sido tão intenso: porque agora eu entendo que aquele texto não era apenas uma provocação bem-humorada. Era uma crítica epistemológica. Uma crítica ao olhar que toma a si mesmo como medida de todas as coisas.

O que esse texto faz é simples e devastador: ele mostra que a linguagem diagnóstica não é neutra. Ela depende de um ponto de vista. Depende de quem observa, de quem nomeia, de quem define o que é excesso, o que é prejuízo, o que é rigidez, o que é comunicação adequada, o que é empatia legítima. Ao inverter o olhar e patologizar a neurotipicidade, o texto expõe o quanto a própria noção de "normalidade" é produzida a partir de um centro não interrogado.

Alguns exemplos são brilhantes justamente porque parecem absurdos — e é esse absurdo que revela a violência de certos enquadramentos clínicos.

Quando o texto fala de um "senso delirante da existência ou dos sentimentos dos outros", não está descrevendo um delírio real. Está ironizando a expectativa neurotípica de que seja natural supor que se sabe o que o outro sente, como se fosse possível ler automaticamente sua interioridade. Quando diz que o neurotípico "se comporta como se fosse clarividente em relação ao sofrimento alheio", a palavra "clarividente" não é literal: ela serve para expor o quanto certas formas de empatia também podem conter invasão, projeção e arrogância interpretativa.

Quando o texto fala em "busca extrema de consolo", está deslocando para o campo do sintoma aquilo que, no mundo neurotípico, costuma ser visto como vínculo legítimo: a necessidade constante de validação, acolhimento visível, confirmação afetiva. Quando fala em "imitação constante ou automática", está ironizando a socialização por cópia, por adequação, por repetição de gestos e códigos aprendidos sem reflexão. E quando descreve a dificuldade em fazer amizades com quem é diferente, apesar do desejo insistente de aceitação social, o texto toca num ponto central: a norma não é apenas um padrão neutro; ela também é um regime de semelhança, um sistema que tolera melhor o espelho do que a alteridade.

A parte da comunicação é ainda mais contundente. O texto transforma em "anomalia" o uso ostensivo de expressões faciais, contato visual direto, gestos excessivos e fala carregada de entonação social. Há uma ironia feroz em descrever como sintoma aquilo que tantas vezes é exigido dos autistas como prova de humanidade: olhar nos olhos, responder do jeito certo, demonstrar afeto do jeito certo, modular o rosto, o corpo e a voz dentro de uma coreografia social considerada normal.

Até as expressões idiomáticas escolhidas são reveladoras. Quando o texto menciona o uso de whatever, não está apenas falando de "tanto faz", mas daquele "ah, tá, tanto faz" carregado de desdém, usado para cortar a fala do outro sem assumir diretamente a agressividade. Quando traz are you dissing me?, não basta traduzir literalmente: trata-se de algo como "você está me desrespeitando?", "você está me tirando?", "está querendo me afrontar?". Ou seja: o texto também mostra que a comunicação neurotípica está cheia de códigos implícitos, tons sociais, ameaças veladas, jogos de poder e expressões cujo sentido não está nas palavras, mas no lugar relacional que ocupam.

Há também um momento especialmente interessante quando o texto fala de uma criança que "gosta de ser pega no colo" e "não enrijece quando é colocada nos braços de alguém". Esse detalhe, que pode soar banal, é profundamente revelador. Porque o que ali aparece como marcador de normalidade é, no fundo, uma expectativa corporal: a de que o corpo do outro aceite espontaneamente o toque, o colo, a aproximação, a invasão afetivamente legitimada. O texto escancara como até o corpo é lido a partir de uma gramática normativa.

E é talvez aí que essa leitura se torna tão importante para mim hoje.

Durante muito tempo, a crítica do modelo social me parecia mais sociológica do que clínica. Eu entendia sua importância política, seu gesto de denúncia, sua recusa da naturalização da opressão. Mas ainda não tinha compreendido plenamente o quanto essa crítica também atravessa a clínica por dentro. Hoje entendo.

Porque a clínica não começa quando o profissional escuta. Ela começa muito antes: no modo como ele organiza o que vê, no que considera dado objetivo, no que chama de sintoma, no que escolhe medir, corrigir, treinar, suprimir ou normalizar. A crítica do modelo social não diz respeito apenas à acessibilidade, aos direitos ou ao preconceito externo. Ela alcança o coração do olhar clínico quando nos obriga a perguntar: de onde estamos olhando? a serviço de que ideal de funcionamento? com que noção implícita de vida boa, de comunicação válida, de vínculo legítimo, de corpo aceitável?

E essa pergunta, para mim, não é abstrata.

Ela atravessa minha história como mãe. Atravessa o modo como meu filho foi lido por médicos que muitas vezes estavam mais comprometidos com a preservação de uma ideia de normalidade do que com a compreensão real de sua forma de existir. Atravessa também minha história como psicóloga, como especialista em autismo, como pesquisadora, como alguém que estudou o tema formalmente e, ainda assim, precisou de muitos anos para perceber a profundidade dessa inversão. E atravessa, claro, meu próprio percurso até o diagnóstico tardio.

Talvez por isso essa releitura tenha sido tão impactante: porque hoje eu não leio esse texto apenas como mãe, nem apenas como profissional. Leio também desde dentro de uma experiência neurodivergente. E isso muda tudo.

Hoje, familiarizada com os estudos da neurodiversidade, posso dizer que esse texto me parece uma antecipação radical de algo que só muito depois ganhou mais corpo para mim: a ideia de que não basta incluir o diferente dentro da norma; é preciso deslocar a própria norma do centro. Não basta tornar a clínica mais gentil se ela continua organizando o mundo a partir de um ideal neurotípico silenciosamente soberano. É preciso interrogar esse ideal.

Talvez por isso eu me reconheça, em alguma medida, quase neuroqueer.

Não uso essa palavra como rótulo estável nem como identidade fechada, mas como vizinhança teórica e existencial. Interessa-me esse gesto de estranhar o que parecia natural, de desorganizar o centro, de recusar que a diferença precise sempre se justificar perante a norma. Interessa-me pensar o quanto a neurodiversidade não é apenas uma pauta de inclusão, mas uma crítica mais funda às ficções de normalidade, coerência e legibilidade sobre as quais construímos tanta clínica, tanta escola, tanta família e tanto laço social.

Recuperar esse texto hoje foi, para mim, recuperar mais do que um arquivo perdido. Foi recuperar um marco interno. Uma dessas leituras que não apenas informam, mas reorganizam o olhar.

Em 2011, eu não conseguia compreender inteiramente o que ele dizia.

Hoje, compreendo.

E compreendo também por que ele me tocou tanto naquela época, mesmo antes de eu poder traduzi-lo para mim mesma: porque havia ali uma verdade que eu ainda não sabia formular, mas já vivia no corpo. A verdade de que o problema nunca esteve apenas nos sujeitos lidos como desviantes. O problema está também — e talvez sobretudo — nos regimes de leitura que transformam uma forma particular de ser humano em padrão universal de saúde, comunicação, desenvolvimento e valor.

Talvez seja por isso que, ao reencontrar esse texto tantos anos depois, eu não tenha sentido apenas nostalgia.

Senti confirmação.

Como quem finalmente reencontra uma linguagem capaz de dizer, com ironia e precisão, algo que já sabia — mas ainda não tinha conseguido escrever.