Baía calma ao entardecer, Praia de Bom Abrigo

Quando uma necessidade vira defeito

Por que o autismo costuma ser lido só como déficit, e quase nunca como qualidade.

Texto4 min de leiturarascunho em revisão

Em outro texto, contei que perdi o ônibus de sempre, fiz um caminho diferente até o trabalho e senti um desconforto que a palavra "rigidez" parecia explicar. Não explicava. (Está em Rigidez para quem?.)

Aqui quero ir um passo além. Por que, quando se trata de autismo, lemos tão depressa um defeito onde pode haver outra coisa?

O que eu chamo de conforto

A primeira palavra que me vem é conforto.

Previsibilidade, para mim, é conforto. É poder construir uma rotina mais adequada, mais ajustada ao que eu desejo. É organizar o meu dia de um modo que funcione.

Para chegar ao trabalho, pego um ônibus do meu bairro até o terminal de integração e outro dali até a universidade. Só que uma coisa é o ônibus que vai até a universidade, e outra é o que vai até a parte onde eu trabalho, que não é a central. Por isso, normalmente, eu caminho. Brinco que atravesso o campus inteirinho todo dia, de um lado ao outro.

Quando consigo organizar tudo isso, saio num horário razoável e chego cedo. Porque eu preciso chegar cedo. Fico muito angustiada quando chego e já tem criança me esperando, mãe me esperando, estagiário me esperando, ou recados de mães, de colegas e de estagiários avisando que alguém vai faltar ou que alguém está doente.

Quando tudo dá certo e eu chego dez para as sete, é maravilhoso. Eu preciso desse tempo para me acomodar. Fiz um deslocamento, então preciso sair do modo deslocamento para entrar no modo trabalho. Faço o café com a colega, às vezes dividimos. Adoro chegar no silêncio, sem crianças. Elas ainda estão lá fora, esperando o portão abrir, e eu, que sou servidora, entro pelo portão lateral, chego na minha sala, na paz, sem ninguém me chamando.

Isso, para mim, é conforto.

Tem gente que gosta de ritmo acelerado, de chegar enlouquecida, já com tudo funcionando. Ótimo para elas. Eu me organizei para chegar nesse horário porque percebi que ficava muito estressada quando chegava um pouco mais tarde. Posso chegar mais tarde, claro. Mas gosto de chegar cedo para ter tempo, porque fazer transição é importante para mim.

Dizem que autistas têm dificuldade com transição. Eu não vejo dificuldade. Vejo prazer e conforto em fazer as coisas de forma organizada, previsível, com tempo, sem interrupções, podendo fazer as minhas transições antes de todo mundo começar a respirar no meu pescoço querendo saber de alguma coisa.

Quem lê isso como déficit está olhando de fora. Eu vejo como conforto, como facilidade, como algo que me faz bem, que me deixa tranquila e me faz começar o dia sem afobação.

E aí vão chamar isso de rigidez? Sério?

Quando uma necessidade vira defeito

Porque é isso que costuma acontecer. A palavra "rigidez" não é neutra. Carrega uma avaliação, quase sempre negativa, sobre determinada maneira de agir.

Uma necessidade de previsibilidade passa a ser chamada de rigidez. A tentativa de evitar uma sobrecarga sensorial pode ser interpretada como resistência. A preferência por ambientes conhecidos pode ser descrita como dificuldade de adaptação.

E, pouco a pouco, aquilo que poderia ser investigado como uma relação particular entre corpo, percepção e ambiente acaba sendo apresentado como uma deficiência na maneira de estar no mundo.

Não estou dizendo que dificuldades diante de mudanças não existam ou que nunca possam produzir limitações importantes. Evidentemente, podem. Mas há uma distância considerável entre reconhecer uma dificuldade e presumir que toda preferência pela estabilidade seja, por definição, problemática.

Talvez aquilo que chamamos de necessidade de rotina tenha relação não apenas com a antecipação dos acontecimentos, mas com a possibilidade de habitar o espaço sem precisar reorganizar continuamente nossa relação com ele.

Desde quando desejar um percurso conhecido, acessível e seguro se tornou uma característica negativa? Mais ainda: desde quando a disposição para mudar continuamente passou a ser considerada uma virtude em si mesma? Por que essas necessidades deveriam valer menos do que o desejo de novidade? Por que suportar mudanças constantes deveria ser a medida de um funcionamento humano desejável?

Não vejo nenhuma virtude especial em transformar uma caminhada até o trabalho numa prova diária de adaptação.

O direito de simplesmente seguir o caminho

Talvez precisemos ter mais cuidado com as palavras que usamos para descrever as pessoas autistas. Uma palavra aparentemente técnica pode carregar um julgamento que passa despercebido. E, quando isso acontece, deixamos de perguntar o que determinada maneira de agir significa para quem a vive. Passamos direto a classificá-la.

Talvez a questão não seja escolher entre a novidade e a repetição, mas poder decidir quando desejamos explorar e quando precisamos apenas chegar.

Às vezes, um caminho conhecido é apenas um caminho conhecido. Outras vezes, é também uma maneira de preservar a tranquilidade, organizar a experiência corporal e reservar energia para aquilo que realmente importa.

E continuo sem compreender por que isso deveria ser considerado um defeito.