Uma ave sobre uma pedra na água ao amanhecer, Praia de Bom Abrigo

Entre o que é dito e o que está acontecendo

Grande parte da vida social acontece nas entrelinhas.

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Os códigos invisíveis da comunicação social

Às vezes o problema não é entender as palavras — é perceber o que realmente está acontecendo na interação.

Outro dia vi um vestido lindo na vitrine de uma loja onde costumo comprar.

Quando provei, já não achei tão bonito assim.

Mas a vendedora insistiu: ficou perfeito.

Acabei comprando.

Em casa percebo que, mais uma vez, comprei uma peça linda, cara… e que provavelmente não vou usar.

Durante muito tempo achei que isso era apenas ingenuidade da minha parte.

Hoje penso diferente.

Porque, aos poucos, comecei a perceber que situações como essa talvez tenham menos a ver com ingenuidade e mais com a forma como diferentes mentes interpretam o mundo social.

Grande parte da vida social acontece nas entrelinhas.
O problema é que nem todas as mentes foram treinadas para lê-las.

O que é dito e o que está acontecendo

Relacionamentos interpessoais são um campo de tensão para a maioria de nós.

Grande parte das interações humanas não se baseia apenas no que é dito explicitamente. Existe uma camada adicional de comunicação — feita de contextos, papéis sociais, expectativas implícitas e pequenos códigos compartilhados.

Pense, por exemplo, no ambiente de trabalho.

Colegas elogiam algo que fizemos e depois descobrimos que criticaram exatamente aquilo em outra conversa.

Alguém concorda durante uma reunião, mas posteriormente toma uma posição completamente diferente.

Nessas situações, a fala não é necessariamente falsa. Muitas vezes ela faz parte de um protocolo social.

Eu costumo chamar esse fenômeno de verniz social.

O verniz social funciona como uma espécie de lubrificante das interações humanas. Ele suaviza conflitos, preserva relações e permite que diferentes pessoas convivam sem que cada discordância precise ser explicitada.

Mas ele também cria um problema importante: nem sempre o que é dito corresponde exatamente ao que está sendo comunicado.

Quando o literal pesa mais que o contexto

Para muitas pessoas, essa camada implícita da comunicação é percebida de forma relativamente intuitiva.

Mas para outras pessoas interpretar esse tipo de situação pode ser muito mais difícil.

Especialmente quando palavras, gestos e expressões parecem coerentes entre si — mas o sentido real da interação depende de elementos contextuais que não estão sendo explicitados.

Na clínica, situações como essas aparecem com muita frequência.

Pessoas relatam episódios repetidos em que confiaram no que foi dito e só depois perceberam que havia outros sentidos implícitos naquela interação.

Com o tempo, essas experiências podem gerar muita dúvida sobre si mesmas.

Muitas passam anos acreditando que são simplesmente ingênuas.

O que a neuropsicologia pode nos ajudar a entender

Do ponto de vista neuropsicológico, interpretar situações sociais é uma tarefa extremamente complexa.

Ela depende de muitos processos acontecendo ao mesmo tempo: experiência acumulada, repertório social, memória de situações semelhantes e da forma como o cérebro organiza e integra essas informações.

Nem todas as mentes fazem isso da mesma maneira.

Por exemplo, no autismo é relativamente comum observar uma tendência maior à interpretação literal da comunicação, associada a padrões de rigidez cognitiva.

No TDAH, por outro lado, pode haver dificuldades em recuperar rapidamente experiências passadas relevantes para orientar decisões futuras.

Em ambos os casos, pode se tornar mais difícil usar o contexto implícito da interação como guia para interpretar uma situação social.

O que os critérios diagnósticos não mostram

Tradicionalmente, o autismo é descrito a partir de dificuldades na comunicação social.

O DSM-5, por exemplo, descreve no Critério A do Transtorno do Espectro Autista déficits persistentes na comunicação e interação social em múltiplos contextos, incluindo limitações na integração entre comunicação verbal e não verbal.

Essa formulação é importante para o diagnóstico.

Mas ela também revela uma limitação importante: os critérios diagnósticos descrevem o autismo a partir da perspectiva do observador neurotípico.

Eles descrevem o que parece faltar no comportamento da pessoa autista.

Muito menos é dito sobre como as interações sociais são vividas e interpretadas por dentro, pela própria pessoa autista.

Diferenças de perspectiva

Nos últimos anos, diferentes autores têm proposto mudanças importantes nessa forma de pensar a comunicação social no autismo.

O pesquisador Damian Milton (2012) propôs o conceito de Double Empathy Problem, sugerindo que muitas dificuldades de comunicação entre autistas e não autistas resultam de diferenças bidirecionais na forma de perceber e interpretar o mundo social.

Além disso, diversos autores têm discutido o fenômeno da camuflagem social (masking), em que pessoas autistas aprendem ao longo da vida a reproduzir comportamentos socialmente esperados para reduzir o estranhamento nas interações.

Esse fenômeno aparece tanto em pesquisas contemporâneas quanto em relatos autobiográficos, como Pretending to Be Normal, de Liane Holliday Willey, e em trabalhos clínicos discutidos por autores como Tony Attwood e Devon Price.

Essas perspectivas ajudam a deslocar a pergunta.

Talvez o problema não seja apenas que algumas pessoas têm dificuldade em se comunicar.

Talvez a questão seja que diferentes formas de mente interpretam o mundo social de maneiras diferentes.

Olhar para dentro, não apenas para fora

Quando mudamos a perspectiva, muitas experiências que antes pareciam simples ingenuidade passam a fazer muito mais sentido.

A pessoa não estava ignorando sinais sociais.

Ela estava tentando interpretar um sistema de comunicação cheio de códigos implícitos — códigos que nem sempre são visíveis para quem os observa de fora.

Por isso acredito que, ao avaliar o funcionamento neuropsicológico de uma pessoa, não basta olhar apenas para os critérios diagnósticos.

Também precisamos compreender como cada pessoa percebe, organiza e interpreta o mundo social.

Talvez seja nesse deslocamento de perspectiva que possamos construir formas mais éticas e mais profundas de compreender a neurodiversidade.

Referências

  • Attwood, T. (2007). The Complete Guide to Asperger’s Syndrome.
  • Milton, D. (2012). On the ontological status of autism: The double empathy problem. Disability & Society.
  • Price, D. (2022). Unmasking Autism.
  • Willey, L. H. (1999). Pretending to Be Normal.

Publicado no Medium em 7 de março de 2026, na íntegra: abrir no Medium

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