Sobre
De onde falamos e por que começamos por aqui.

Scheilla Soares
Pedagoga, psicóloga (CRP 12/01849), neuropsicóloga e mestre em educação

O que é o Espelho das Águas
O Espelho das Águas é um espaço de produção e circulação de conhecimentos, narrativas e recursos fundamentados na perspectiva neuroafirmativa. Dialoga criticamente com diferentes campos do conhecimento, incorporando suas contribuições quando favorecem a compreensão da neurodivergência, o reconhecimento das singularidades e a ampliação das possibilidades de existência e autodeterminação das pessoas.
O Espelho das Águas foi pensado, desde o início, como um espaço para falar sobre o autismo em adultos: o diagnóstico tardio e tudo o que ele envolve. Agora ele ganha um espaço próprio, fora do site onde nasceu. Estes primeiros textos inauguram essa nova casa.
A ideia é trazer a visão do autismo por nós mesmas e por nós mesmos. Pessoas autistas que também são profissionais, que também são mães e pais. Não só a minha voz, mas também a de outras autoras e autores autistas.
De onde eu falo
Falo como uma pessoa neurodivergente, com autismo e TDAH, e como psicóloga. Mas não estou só narrando a minha vida. Parto da experiência para trazer questões teóricas e para problematizar visões que me parecem muito limitantes.
Autismo é uma condição do neurodesenvolvimento. Não é uma doença. Existe sofrimento, existe prejuízo, claro. Só que não é porque sou autista: o prejuízo vem de um mundo pensado para um ideal de normatividade que duvido que exista.
É muito fácil falar em déficit, em transtorno, em deficiência quando se fala do outro. Quando falo de mim, é diferente. Não me identifico com a expressão "pessoa com deficiência". Entendo que ela é uma escolha política dos movimentos de pessoas com deficiência, com a força que isso tem, e a respeito. Também acho que existe aí um problema de linguagem: o termo vem do inglês, disability, e nós o traduzimos como "deficiência". Por isso prefiro falar de mim como uma pessoa neurodivergente.
O que faço com os critérios
Os manuais descrevem o autismo por critérios, e alguns deles falam em adesão inflexível a rotinas e em resistência a mudanças. A literatura costuma chamar isso de rigidez, em geral rigidez cognitiva. Neste espaço eu vou questionar esses critérios, como fiz em Rigidez para quem?.
Isso não significa evitar os termos nem abandonar os critérios do DSM. Significa entender que eles partem de um determinado modelo de sociedade e de uma determinada visão de ser humano, de quem é considerado com transtorno e de quem não é. Na perspectiva neuroafirmativa, entendemos que a normatividade é uma construção social, que atende a interesses políticos e econômicos.
Entre iguais
Há um lema conhecido da comunidade surda: "nada sobre nós sem nós". Aqui, como profissional da área, me coloco também como especialista. A conversa que o Espelho quer ter é de igual para igual, a partir de outra premissa: não me vejo como deficitária, nem como pessoa com transtorno.
Este é um lugar para dizer: é assim que eu sou, e isso não está errado. É assim que somos muitos autistas, e isso não é uma anomalia.
É daí que o Espelho nasce.
Sobre o alcance destes textos
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, que os manuais chamam de transtorno do espectro autista (TEA). Reúne uma ampla diversidade de manifestações, características individuais e necessidades de apoio. A noção de espectro não corresponde a uma escala linear que vai de pessoas "menos autistas" a pessoas "mais autistas": reconhece diferentes formas de funcionamento, experiências e modos de estar no mundo.
Os textos aqui apresentados partem de minha experiência pessoal como mulher autista, articulada às experiências de outras pessoas autistas, às observações decorrentes de minha trajetória profissional e ao diálogo com a literatura científica.
Embora algumas reflexões possam encontrar ressonância em diferentes experiências dentro do espectro, meu enfoque recai principalmente sobre pessoas autistas sem deficiência intelectual associada, especialmente adultos cujas características poderiam ser aproximadas, em determinados contextos diagnósticos, da atual classificação de nível 1 de suporte ou da antiga denominação de síndrome de Asperger.
É importante esclarecer que essas classificações não são equivalentes e tampouco representam grupos homogêneos. A ausência de deficiência intelectual não implica ausência de dificuldades significativas, sofrimento psíquico, condições de saúde concomitantes ou necessidades de apoio. Além disso, essas necessidades podem variar ao longo da vida e conforme as condições ambientais, sociais e relacionais.
Reconheço que outras pessoas autistas podem compreender e nomear suas vivências de maneiras distintas das que apresento.
O Espelho das Águas é de responsabilidade de Scheilla Soares, pedagoga, psicóloga (CRP 12/01849), neuropsicóloga e mestre em educação.
