Sol alaranjado visto entre os galhos de uma árvore, com o reflexo dourado na água

O autismo que o Brasil ainda não conhece

Algumas reflexões sobre circulação de conhecimento, autoadvocacia e os estudos contemporâneos sobre neurodiversidade.

Texto7 min de leitura

Existe uma sensação que me acompanha há alguns anos sempre que participo de debates sobre autismo, neurodiversidade e inclusão no Brasil.

A sensação de que estamos discutindo apenas uma parte da conversa.

Não porque faltem pesquisas.

Não porque faltem profissionais comprometidos.

E tampouco porque faltem pessoas interessadas no tema.

Mas porque uma parcela significativa das discussões que vêm transformando o campo da neurodiversidade nas últimas décadas ainda circula muito pouco em língua portuguesa.

Quando pensamos em autismo, por exemplo, grande parte das referências utilizadas em cursos, formações e debates públicos brasileiros continua centrada em modelos produzidos principalmente por pesquisadores não autistas, frequentemente vinculados a perspectivas clínicas, diagnósticas ou reabilitativas.

Enquanto isso, em diversos países, especialmente nos contextos anglófonos, consolidou-se ao longo das últimas décadas um campo de estudos muito mais amplo, diverso e complexo.

Um campo que inclui pesquisadores autistas.

Escritores autistas.

Ativistas autistas.

Profissionais autistas.

E, sobretudo, pessoas autistas produzindo conhecimento sobre suas próprias experiências.

Essa mudança de perspectiva não é pequena.

Ela altera profundamente as perguntas que fazemos.

Quem produz conhecimento sobre o autismo?

Durante muito tempo, o autismo foi estudado quase exclusivamente de fora para dentro.

Pesquisadores observavam.

Profissionais descreviam.

Instituições definiam categorias.

Pessoas autistas apareciam principalmente como objeto de investigação.

Nas últimas décadas, porém, essa configuração começou a mudar.

Cada vez mais pessoas autistas passaram a ocupar espaços de pesquisa, produção teórica, escrita e autoadvocacia.

E, com isso, surgiram perguntas que antes raramente apareciam.

O que significa viver a experiência do autismo?

Como o ambiente participa da produção das dificuldades atribuídas ao autismo?

O que acontece quando ouvimos pessoas autistas falando sobre si mesmas em vez de apenas ouvirmos profissionais falando sobre elas?

Essas questões contribuíram para o surgimento de novos modelos teóricos e novas formas de compreender a neurodiversidade.

Conceitos que ainda circulam pouco entre nós

Termos como monotropismo, dupla empatia, masking, burnout autista e Neuroqueer vêm ocupando espaço crescente na literatura internacional.

Não se trata de conceitos marginais.

São ideias que vêm influenciando pesquisas, práticas profissionais e debates acadêmicos em diferentes áreas.

No entanto, muitas dessas discussões ainda permanecem restritas no contexto brasileiro.

Algumas obras importantes nunca foram traduzidas.

Outras circulam apenas em pequenos grupos de estudo.

Muitas sequer chegaram ao conhecimento da maior parte dos profissionais que atuam diretamente com pessoas neurodivergentes.

Isso cria uma situação curiosa.

Enquanto determinados debates já são amplamente discutidos em alguns contextos internacionais, nós frequentemente continuamos revisitando questões que, em outros lugares, já deram origem a discussões muito mais complexas.

O problema não é apenas a tradução

Quando falo em lacuna, não estou me referindo apenas à ausência de traduções formais.

A questão é mais ampla.

Trata-se de circulação de conhecimento.

De acesso.

De diálogo.

De pontes entre comunidades acadêmicas, movimentos sociais, profissionais e pessoas neurodivergentes.

Uma ideia pode estar publicada há anos em inglês e, ainda assim, permanecer invisível para quem lê apenas em português.

Isso tem consequências.

Influencia a formação profissional.

Limita o debate público.

Reduz o repertório disponível para compreender experiências neurodivergentes.

E, muitas vezes, mantém invisíveis contribuições fundamentais produzidas por pessoas que vivenciam aquilo que estudam.

Neurodiversidade não nasceu como um projeto de inclusão

Uma das consequências mais visíveis dessa lacuna aparece na forma como o próprio conceito de neurodiversidade é apresentado no Brasil.

Com frequência, ele é descrito como uma proposta de aceitação das diferenças ou como uma abordagem mais humanizada do autismo.

Essas leituras existem. Mas são insuficientes.

A história da neurodiversidade está profundamente ligada aos movimentos de autoadvocacia de pessoas neurodivergentes.

Ela surge quando essas pessoas reivindicam participação ativa nas discussões que dizem respeito às suas próprias vidas.

Nesse sentido, a neurodiversidade não é apenas uma proposta de inclusão.

Ela é também uma discussão sobre voz, representação e produção de conhecimento.

Construindo pontes

Foi a partir dessa percepção que comecei a me interessar cada vez mais pela leitura de autoras e autores que ainda circulam pouco no Brasil.

Não porque possuam respostas definitivas.

Mas porque ampliam as perguntas.

Porque apresentam perspectivas que raramente aparecem nas formações tradicionais.

Porque ajudam a construir uma conversa mais rica, mais diversa e mais próxima da experiência vivida.

Uma das tarefas mais urgentes dos próximos anos é essa.

Criar pontes.

Entre idiomas.

Entre campos do conhecimento.

Entre a produção acadêmica e a experiência vivida.

Entre aquilo que já está sendo discutido em diferentes partes do mundo e aquilo que ainda estamos começando a descobrir.

Não para importar modelos prontos.

Mas para ampliar o horizonte da conversa.

Porque, quando uma parte significativa do conhecimento permanece fora de circulação, não perdemos apenas informações.

Perdemos possibilidades de compreensão.

É aqui que iniciativas independentes, grupos de estudo, blogs, tradutoras, pesquisadoras, profissionais e pessoas neurodivergentes podem desempenhar um papel fundamental: ajudar a fazer circular ideias que ainda não encontraram espaço suficiente em nossa língua e em nossos debates.

Não se trata de substituir a produção brasileira.

Ao contrário.

Trata-se de enriquecer a conversa.

De criar diálogos mais amplos.

De permitir que diferentes tradições de conhecimento possam se encontrar.

E, sobretudo, de reconhecer que algumas das contribuições mais relevantes para a compreensão contemporânea do autismo e da neurodiversidade vêm sendo produzidas pelas próprias pessoas neurodivergentes.

Algumas vozes importantes nesta conversa

As reflexões apresentadas neste texto foram construídas a partir do diálogo com uma literatura ainda pouco difundida no Brasil, especialmente no campo dos estudos sobre neurodiversidade, autoadvocacia autista e experiências vividas.

Entre as autoras e os autores que considero particularmente importantes nesse percurso estão:

Judy Singer — socióloga australiana reconhecida por introduzir o conceito de neurodiversidade em sua pesquisa no final da década de 1990, contribuindo para uma compreensão social e política das diferenças neurológicas.

Jim Sinclair — uma das vozes pioneiras da autoadvocacia autista, autor do influente ensaio Don’t Mourn for Us (1993), considerado um marco na construção da identidade autista contemporânea.

Damian Milton — pesquisador britânico conhecido pela formulação do conceito de Dupla Empatia (Double Empathy Problem), que reformula a compreensão das dificuldades de comunicação entre pessoas autistas e não autistas.

Nick Walker — escritora, educadora e pesquisadora autista cujos trabalhos ajudaram a consolidar o paradigma da neurodiversidade e a noção de neurodivergência como uma variação humana legítima.

Devon Price — psicólogo social e autor de Unmasking Autism. Foi a primeira vez que encontrei alguém profundamente familiarizado com a psicologia e com os modelos diagnósticos que ainda assim precisou revisitar suas próprias certezas sobre o autismo — e isso teve um peso particular para mim.

Monique Botha — pesquisadora cujos estudos investigam identidade autista, estigma, saúde mental e participação social de pessoas neurodivergentes.

Stephanie Jones — autora e pesquisadora autista cujos trabalhos abordam diagnóstico tardio, identidade autista feminina e experiências vividas na vida adulta. A leitura do seu Manual de Sobrevivência Autista me levou a questionar não apenas minha experiência pessoal, mas a imagem implicitamente neurotípica que eu havia internalizado da própria profissão de psicóloga.

Luke Beardon — pesquisador britânico que propõe abordagens centradas na experiência autista e na compreensão dos impactos ambientais e sociais sobre o bem-estar.

Também merecem destaque os trabalhos de Dinah Murray, Mike Lesser e Wenn Lawson, fundamentais para o desenvolvimento da teoria do Monotropismo, uma das contribuições mais interessantes para a compreensão contemporânea do funcionamento cognitivo autista.

Além desses nomes, discussões recentes sobre burnout autista, masking, Neuroqueer, acessibilidade cognitiva, identidade neurodivergente e modelos de apoio baseados na neurodiversidade vêm ampliando significativamente o campo de conhecimento disponível para compreendermos a experiência humana para além dos modelos estritamente clínicos.

Para quem deseja aprofundar a leitura

Beardon, L. (2017). Autism and Asperger Syndrome in Adults.

Milton, D. (2012). On the Ontological Status of Autism: The Double Empathy Problem.

Murray, D., Lesser, M., & Lawson, W. (2005). Attention, Monotropism and the Diagnostic Criteria for Autism.

Price, D. (2022). Unmasking Autism: Discovering the New Faces of Neurodiversity.

Sinclair, J. (1993). Don’t Mourn for Us.

Singer, J. (1999). Why Can’t You Be Normal for Once in Your Life? From a Problem with No Name to the Emergence of a New Category of Difference.

Walker, N. (2021). Neuroqueer Heresies.

Essas referências não representam um consenso nem esgotam o campo. Mas oferecem um ponto de partida valioso para quem deseja compreender como as discussões sobre autismo e neurodiversidade vêm se transformando nas últimas décadas, especialmente quando passamos a incluir, de forma mais consistente, as vozes das próprias pessoas neurodivergentes na produção do conhecimento.


Publicado no Medium em 29 de maio de 2026, na íntegra: abrir no Medium