
Você é mesmo normal? Quando a normalidade adoece
Por que chamamos de neurodivergente quem sofre por não caber no mundo — e nunca questionamos o mundo que exclui a diferença?
Desde que o conceito de neurodiversidade ganhou força, fala-se muito sobre autismo, TDAH, dislexia e outras formas de funcionamento neurológico. Mas pouco — quase nada — se diz sobre o outro lado da régua: o que é ser 'neurotípico'? Quem definiu que esse modo de existir é o mais saudável? O mais desejável?
A normatividade funciona como uma régua silenciosa que mede tudo sem nunca se mostrar. Ela determina expectativas sobre como falar, reagir, se interessar, viver em um ritmo 'aceitável'. Judith Butler nos lembra que a norma não apenas organiza — ela define quem pertence e quem será afastado.
Ser considerado normal pode parecer confortável, mas gera custos: desconexão de si, culpa por sentir, hiperadaptação constante. Gabor Maté, em O Mito do Normal, sugere que muitas doenças físicas e transtornos psíquicos são respostas adaptativas a um sistema que exige autocancelamento.
Os manuais descrevem autismo com termos como 'déficits na comunicação social' e 'interesses restritos'. Invertendo essa perspectiva: o que diríamos da compulsão por interações vazias e da necessidade contínua de aprovação que chamamos de normalidade?
Talvez neurodivergentes estejam à frente: tentando viver uma vida mais autêntica, menos automática, menos normalizada. Não precisamos caber para ter valor.
Versão resumida de um texto publicado no Medium. Texto completo: abrir no Medium



