
O corpo sabe antes da teoria
Não deixa de ser carinho. Mas deixa de ser escolha.
Ela veio me abraçar.
Era uma amiga querida. Estávamos há um bom tempo sem nos vermos.
Eu também estava com saudade.
E sim — nessas horas eu consigo. Eu sustento o desconforto por um tempo.
Eu sei que é um gesto de carinho. Eu sei que há afeto ali.
Mas o abraço demorou mais do que o meu corpo conseguia sustentar.
Ela me segurava e dizia, meio brincando:
“eu sei que tu não gostas de abraço, mas hoje eu vou te abraçar.”
E ali aconteceu algo muito sutil — e muito importante.
Porque não era maldade.
Era carinho.
Mas também era, ao mesmo tempo, uma tentativa de me atravessar.
E foi nesse momento que ficou evidente para mim algo que vai muito além daquela cena.
Um detalhe que muda tudo
Fico com certo cuidado ao escrever sobre isso, porque se trata de uma pessoa que eu gosto — e isso importa.
Mas há um detalhe que muda completamente a experiência: eu estava sentada.
Eu não consegui me afastar.
Se estivesse de pé, teria feito o que faço com amigas mais “abraçadeiras”: ajusto a distância, me retiro, regulo o contato. Isso funciona para mim.
Mas ali, eu fiquei.
E é nesse “ficar sem poder sair” que a experiência muda de qualidade.
Não deixa de ser carinho.
Mas deixa de ser escolha.
Não é sobre o abraço
Seria fácil reduzir essa cena a uma questão de preferência pessoal.
Não é isso.
É uma questão de funcionamento.
Há limites que não são aprendidos.
Não são treináveis.
Não são “questão de costume”.
São sensoriais.
E não melhoram com exposição.
pioram.
Ao longo da vida, escutei muitas vezes:
- que eu sou seca
- que preciso aprender
- que preciso me acostumar
Mas o ponto não é esse.
O ponto é que há experiências que não se tornam mais confortáveis com repetição.
Elas apenas se tornam mais desgastantes.
Escrito por mim, a partir de uma cena que vivi.



