Passarela de madeira ao lado de uma encosta verde, refletida na água parada sob o céu azul

Rigidez para quem?

Hoje me peguei pensando "você está sendo rígida". Depois me corrigi.

Cena4 min de leiturarascunho em revisão
Campo alagado com árvores e nuvens refletidas na água
Campo alagado no rio Stour, Dorset, Inglaterra. Foto: Marilyn Peddle, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Hoje cedo, a caminho do trabalho, me peguei pensando: nossa, você está sendo rígida.

Eu tinha perdido o ônibus de sempre por poucos minutos e, com ele, a conexão. Peguei outra linha, uma que eu nunca pego, e comecei a sentir desconforto. Primeiro porque a rotina tinha quebrado. Depois porque eu não sabia exatamente onde aquele ônibus ia me deixar.

A palavra veio pronta, porque é a que existe para isso: pessoa autista, mudança de percurso, desconforto, rigidez.

Já fiz terapia em que uma das tarefas da semana era fazer um caminho novo. Como se o problema fosse eu fazer sempre o mesmo caminho e o trabalho fosse me tirar dele. E eu pensei: cara, essa é uma forma de olhar o autismo.

Não era só rigidez

Fui andando e me corrigi. Não era só rigidez. Dizer só isso é uma explicação rasa.

Eu não me recusava a mudar. Tinha passado dias experimentando horários, linhas e caminhos até achar o trajeto mais simples e confortável. Eu estava mudando minha rotina para melhorá-la. Querer manter o caminho que funcionava não é rigidez.

Por trás da rotina havia muito trabalho. Quem vai de carro também enfrenta trânsito, mas o ônibus acrescenta horários que não dependem de mim. Existe uma elaboração cognitiva por trás dessa organização. Alguém de fora pode chamá-la de adesão inflexível a rotina. Eu chamo de planejamento.

Não era um lugar desconhecido. Minha relação com a universidade começou em 1985. Fiz graduações, mestrado, pós-graduação, trabalhei e trabalho lá. Já atravessei aqueles lugares incontáveis vezes.

Não havia nada de errado. Costumo chegar antes das sete e cheguei às 7h05. Já estava com o computador ligado, preenchendo o registro de frequência, e as aulas só começam às 7h30. Mesmo assim o corpo estava em alerta. Meu Deus, estou tensa.

O lugar tinha mudado. Com tanta chuva, os gramados estavam alagados, a grama alta, galhos e folhas pelos caminhos, quase ninguém por perto. Em certos momentos achei bonito, quase um Monet. Em outros, parecia cenário de The Walking Dead.

Claude Monet, Flood Waters (1896)
Claude Monet, Flood Waters, 1896. Óleo sobre tela, 71 × 91,5 cm. The National Gallery, Londres (NG6278). Foto © The National Gallery, Londres, CC BY-NC-ND 4.0.

Num bosque, nada daquilo me estranharia. Mas era um campus, um espaço planejado, e um jardim conhecido pode ficar estranho quando perde a organização que aprendemos a reconhecer.

Eram mudanças pequenas num lugar que eu conheço muito bem, e o meu corpo reagia como se fossem grandes.

Não estou dizendo que a rigidez não exista. Trabalho com crianças, tenho filhos neurodivergentes e sei o quanto a inflexibilidade diante de rotinas acontece de fato, e o quanto pode ser difícil. Para mim, a dificuldade de mudar de perspectiva também contribui para que eu me agarre a uma rotina. O que me interessa é outra coisa: quanto mais estudo a mim e aos outros, mais percebo que existe uma construção conceitual por trás do que chamamos de inflexível, de rígido.

O que fui ler

Fui lembrando de estudos sobre propriocepção e percepção no autismo, de como isso é complexo, e de algo que li em algum lugar, sobre o ambiente também entrar nessa conta.

Mais tarde, depois de atender as crianças e encaminhar o que precisava no trabalho, fui para o computador. Encontrei textos que ampliaram meu olhar, inclusive alguns que nem falavam de autismo, sobre psicologia ambiental.

Um estudo de 2023 (Cena, Mauro e Rapp) mostrou que, quando adultos autistas recebiam informações sobre luz, ruído, odores e aglomeração de um lugar antes de visitá-lo, 42% das avaliações mudavam. Saber antes ampliava as escolhas, não só servia para evitar. E uma revisão de 77 estudos (2026) coloca a previsibilidade entre as qualidades de um ambiente sensorialmente inclusivo: uma qualidade do espaço, não só uma necessidade da pessoa.

Nenhum desses trabalhos descreve exatamente o que vivi. Mas me ajudaram a reelaborar.

O ambiente também entra na conta

Algumas explicações sobre o autismo concentram a atenção na pessoa e deixam o ambiente quase inteiramente fora da conversa. Se alguém precisa de previsibilidade, falamos em rigidez. Raramente começamos perguntando como o espaço está organizado e o que ele exige de quem o atravessa.

Gosto de conhecer lugares novos. Também gosto de saber por onde vou passar quando saio cedo de casa. Uma coisa não contradiz a outra.

E quanto mais eu estudava, menos disposta eu ficava a aceitar a rigidez como definição do que tinha acontecido comigo.

Escrito por mim, a partir de uma cena que vivi.

Sobre o alcance destes textos