Pôr do sol alaranjado e roxo, com a mata ao fundo e as ondas refletindo o céu na praia

Por que encontros agradáveis também podem ser exaustivos para pessoas autistas?

Como era possível uma experiência ser afetivamente boa e, ao mesmo tempo, me deixar tão exausta?

Texto5 min de leiturarascunho em revisão

Desde que entendi o quanto o autismo faz parte da minha identidade, tenho por hábito estudar o que acontece comigo em determinadas situações e me perguntar se aquilo que vivo tem alguma relação com o autismo.

Dia desses, depois de um almoço em família, fiquei pensando no que os estudos sobre o autismo, especialmente os estudos críticos, poderiam me ajudar a compreender sobre o cansaço que eu estava sentindo. Eu tinha gostado do almoço. Estava com pessoas de quem gosto. Como era possível uma experiência ser afetivamente boa e, ao mesmo tempo, me deixar tão exausta?

Eu imaginava que estar com pessoas próximas, sem conflitos e com liberdade para agir espontaneamente, seria menos desgastante. Ainda mais na minha casa, onde tenho algum controle sobre o ambiente.

Nas leituras que fiz, encontrei explicações sobre a exaustão social relacionadas ao esforço de camuflar características autistas, interpretar regras implícitas ou corresponder às expectativas dos outros (Hull e colaboradores, 2017). Reconheço esse esforço quando estou em uma reunião de trabalho, por exemplo.

No entanto, essas explicações não pareciam dar conta de tudo o que acontecia naquele almoço. Entre familiares ou amigos íntimos, eu me sentia segura, participava de conversas interessantes e, ainda assim, precisava de um longo período de recuperação.

Para tentar entender isso, comecei a olhar separadamente para o prazer que uma interação me proporciona e para o que preciso fazer enquanto participo dela.

Gostar da companhia não elimina o esforço

Foi aí que tive que admitir uma coisa: mesmo uma conversa interessante exige que eu acompanhe o que está sendo dito, perceba quando posso falar e organize o que quero responder. Quando há várias pessoas, preciso também alternar a atenção entre elas.

Eu gosto da conversa. Às vezes, quero continuar, mas acompanhar tudo isso me cansa.

Estar à vontade muda bastante a experiência. Posso falar com mais liberdade, ficar menos preocupada com a maneira como estou sendo compreendida. Ainda assim, continuo precisando acompanhar as pessoas e responder ao que acontece.

Ou então, talvez para evitar tanta alternância, eu acabe monopolizando a conversa em alguns momentos. Foi aí que lembrei de outras pessoas autistas com quem me relaciono e me perguntei se isso ajudaria a entender por que, às vezes, transformamos nossas interações em pequenas aulas expositivas sobre determinado tema.

Visto de fora, isso pode parecer falta de interesse pelo outro, ou até falta de empatia. Mas fiquei me perguntando se, em alguns momentos, falar longamente sobre um assunto não seria uma maneira de lidar com a quantidade de informações que precisamos acompanhar. Enquanto desenvolvo uma ideia, consigo seguir um fio. Quando a palavra circula entre várias pessoas, preciso acompanhar as mudanças de direção e encontrar uma brecha para participar.

Numa conversa a dois, isso costuma ser mais simples para mim. Mas basta haver mais uma ou duas pessoas para que acompanhar todas essas idas e vindas comece a exigir muito mais.

O ambiente continua lá

Nessas minhas divagações, também precisei olhar para algo que muitas vezes fica em segundo plano quando tentamos entender o cansaço de uma interação: o ambiente.

Minha casa tem poucos estímulos, se comparada a muitos outros espaços. Mas, durante um almoço, há sons, movimentos, cheiros e pessoas fazendo coisas ao mesmo tempo.

As conversas podem se sobrepor. Há ruídos da rua, objetos sendo colocados ou retirados da mesa, alguém que se levanta enquanto outra pessoa fala. Não precisa acontecer nada que os presentes considerem especialmente barulhento para que eu perceba tudo isso.

Comecei a me perguntar quanto desse ambiente continuava exigindo minha atenção enquanto eu participava de uma conversa de que gostava.

Acompanhar a conversa e perceber o resto

Foi essa observação que me levou a buscar leituras sobre processamento sensorial e percepção no autismo (Crane, Goddard e Pring, 2009; Mottron e colaboradores, 2006). Eu queria entender algo que percebo em mim: acompanhar uma conversa não faz os outros estímulos desaparecerem.

Posso continuar ouvindo quem está falando sem me voltar para cada ruído. Mas continuo percebendo os sons e os movimentos ao redor. Conseguir manter a atenção na conversa não significa que isso esteja acontecendo sem esforço.

Fico pensando no trabalho envolvido em ouvir uma pessoa enquanto tanta coisa acontece em volta, especialmente quando preciso alternar a atenção entre várias falas.

Ainda não sei quanto isso explica o cansaço que senti depois daquele almoço. Mas estar em casa e me sentir segura não tornava o ambiente irrelevante. Eu continuava percebendo o que acontecia ao redor, mesmo quando estava gostando de estar ali.

Estar em casa também é estar disponível

Há outra diferença que venho percebendo. Estar na minha casa com outras pessoas não é a mesma coisa que estar na minha casa sozinha.

Com companhia, participo do que acontece. Escuto, respondo, divido a atenção. Mesmo quando tudo corre bem, há uma disponibilidade que preciso sustentar durante o encontro.

Isso me faz pensar também nas expectativas que cercam a convivência. Permanecer junto, conversar por bastante tempo e continuar disponível costumam ser maneiras de demonstrar que estamos gostando. Mas posso estar gostando e começar a precisar de silêncio. Posso querer a companhia e, depois de algum tempo, precisar me recolher.

Uma perspectiva neuroafirmativa me ajuda a levar essa necessidade a sério e a perguntar que espaço ela encontra nas relações. Há liberdade para fazer uma pausa? Para ficar um pouco sem conversar? Para encerrar o encontro antes de chegar à exaustão?

O que consegui compreender até aqui

As leituras ainda não me permitem explicar inteiramente o cansaço daquele almoço, nem dizer quanto dele se relaciona à atenção, aos estímulos do ambiente ou à necessidade de permanecer disponível.

Entretanto, olhar para essas possibilidades mudou a pergunta que eu estava fazendo. Gostar do encontro não me informa, sozinho, quanto ele exigiu de mim.

Naquele dia, eu tinha gostado de estar com a minha família e precisava descansar depois. Começo a entender melhor por que uma coisa não anulava a outra.

Fontes
Crane, L., Goddard, L. e Pring, L. (2009). Sensory processing in adults with autism spectrum disorders. Autism, 13(3), 215–228.
Hull, L. e colaboradores (2017). "Putting on my best normal": social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519–2534.
Mottron, L., Dawson, M., Soulières, I., Hubert, B. e Burack, J. (2006). Enhanced perceptual functioning in autism: an update, and eight principles of autistic perception. Journal of Autism and Developmental Disorders, 36(1), 27–43.