
Uma carta sobre sentidos, cansaço e pequenos cuidados
Nem toda exaustão é emocional no sentido em que costumamos nomear. Algumas são sensoriais.
Querida,
Queria te escrever hoje de um jeito mais simples, quase como quem puxa uma cadeira e diz: deixa eu te contar uma coisa que li e que ficou comigo.
Outro dia encontrei um texto sobre sobrecarga sensorial. Não era exatamente novo para mim — afinal, isso atravessa minha vida há muito tempo —, mas algo ali me tocou de um jeito diferente. Talvez porque o texto não tratasse o cansaço como falha, nem a sensibilidade como excesso. Tratava como informação do corpo.
Li com calma. E fui me reconhecendo.
Percebi, mais uma vez, que nem toda exaustão é emocional no sentido em que costumamos nomear. Algumas são sensoriais. Profundamente corporais.
Antes de entender isso, eu me culpava muito: por não dar conta de ambientes comuns, por me cansar com tarefas simples, por sentir que o mundo estava quase sempre alto demais, claro demais, cheio demais.
A gente fala muito de esgotamento emocional, mas quase nunca olha para aquilo que entra pelos sentidos. E, para muitas pessoas — especialmente autistas, pessoas com TDAH ou com histórico de estresse crônico — o desgaste começa antes da emoção. Começa na luz, no som, na textura, no excesso.
O texto propunha algo simples: uma lista de verificação sensorial. Nada grandioso. Nada milagroso. Apenas um convite à percepção. Cinco minutos para olhar para o próprio corpo e perguntar: o que aqui está demais para mim?
Enquanto eu lia, pensei em você. E em mim. E em tantas outras pessoas que seguem tentando “dar conta” sem perceber o custo invisível disso.
Fiquei imaginando como seria transformar essas listas em pequenos cards. Um card para cada domínio sensorial: luz, som, tato, cheiro, ambiente, pessoas. Algo que desse para imprimir, tocar, deixar sobre a mesa ou guardar na bolsa. Não como técnica, mas como lembrete. Um jeito gentil de dizer: olha para isso antes de se forçar mais um pouco.
Talvez porque, quando a sobrecarga chega, pensar já é difícil. Mas olhar um card, marcar mentalmente um item, pode ser possível.
O que mais me marcou naquele texto — e que eu quis guardar — é a ideia de que reconhecer gatilhos sensoriais não é evitar o mundo. É aprender a habitá-lo com menos custo interno. Ajustar o que dá, planejar pausas, comunicar limites, reduzir a exaustão silenciosa de existir o tempo todo em adaptação.
A regulação sensorial não resolve tudo.
Mas abre um caminho.
Quis te escrever para compartilhar isso. Como quem divide algo que ainda está reverberando. Talvez daqui nasçam cards, talvez não. Talvez só mais escuta.
Mas, por hoje, achei que valia te contar.
Com carinho,
Scheilla
Publicado no Substack em 9 de janeiro de 2026, na íntegra: abrir no Substack



