
O encontro acabou. Por que o cansaço continua?
Estava com a minha família. Com os meus. E, ainda assim, terminei o dia exausta.
Neste fim de semana, organizei um almoço para receber mais pessoas da família. Resolvemos encomendar a comida, tudo muito simples, para não passar boa parte da manhã cozinhando. Eu esperava que isso, por si só, diminuísse o cansaço ao final do dia. Mas não foi o que aconteceu. E fiquei me perguntando de onde vinha aquela exaustão.
Não estávamos em um restaurante cheio de pessoas, vozes, cheiros e movimentos. Não passei a manhã cozinhando. Também não estava entre pessoas desconhecidas, diante das quais precisaria tomar cuidado para não parecer atípica demais. Estava com a minha família. Com os meus. E, ainda assim, terminei o dia exausta.
Quando estamos apenas eu e meus filhos, as coisas são diferentes. Podemos terminar o almoço, dividir as tarefas de lavar a louça e arrumar a cozinha e, depois, cada autista voltar para sua caverna. Algumas vezes eu simplesmente fico um tempo sem fazer nada. Simples assim.
Mas, quando há outras pessoas em casa, a dinâmica muda. Não vamos simplesmente desaparecer depois do almoço. Vamos conversar, permanecer juntos, aproveitar a companhia. E aquele tempo sem fazer nada deixa de existir. E não porque eu seja obrigada: eu quero estar ali. Gosto das pessoas, da conversa, do encontro. Mas isso tem um preço.
Quando falo em receber mais pessoas da família, não estou descrevendo uma casa cheia, com vários casais, crianças correndo e um bebê chorando. Às vezes são apenas uma ou duas pessoas a mais à mesa. Meus irmãos, por exemplo. Adultos, sem filhos. Pessoas com quem tenho intimidade suficiente para não precisar representar a senhora matriarca da família. Eles entendem que não haverá nenhuma TV ligada, como acontece em algumas casas, e que estaremos em silêncio no ambiente, o que abre a porta para conversas.
É justamente isso que torna a experiência tão intrigante. Aparentemente, é tudo muito tranquilo. E é mesmo. Não há nenhum grande acontecimento, nenhuma situação especialmente difícil, nenhum grande esforço, como seria numa reunião de trabalho. Mas continuo podendo terminar o encontro exausta.
Uma coisa que percebi aos poucos foi o cansaço depois de ir ao shopping. Um shopping é um lugar carregado de estímulos. Luzes diferentes, sons que se misturam, movimento por todos os lados. E é curioso como posso deixar de perceber o quanto essas coisas me afetam.
Passei a fazer pequenas experiências comigo mesma. Em uma delas, fui ao shopping usando fones com ruído branco e óculos de lentes âmbar. Usei os dois, e os dois fizeram diferença. Foi como caminhar nas nuvens. Que bênção é reduzir os estímulos! Não foi preciso que as luzes me incomodassem de maneira evidente para que sua redução fizesse diferença. O mesmo vale para os sons. Meu sistema nervoso não deixava de receber estímulos simplesmente porque eu não estava prestando atenção neles.
Foi assim que comecei a escolher outros lugares para estar com as pessoas. Evitar restaurantes cheios. Preferir ambientes mais tranquilos, espaços abertos. Almoçar em casa, em vez de sair. O almoço em família fazia parte dessas escolhas. Eu havia aprendido alguma coisa sobre minhas necessidades. Havia procurado respeitá-las. E, mesmo assim, o cansaço estava lá.
Porque o silêncio da minha casa não é o silêncio que as pessoas imaginam. Para uma pessoa autista com sensibilidade auditiva, não existe silêncio fácil, nem em casa.
Agora mesmo tem passarinhos cantando. Meu vizinho está ouvindo TV. Há um pombo em algum lugar. Acabou de passar um caminhão na rua. Tem algum eletrodoméstico apitando em um apartamento vizinho. Um carro está manobrando; o sensor de ré é ótimo, mas faz barulho. O caminhão ainda não estacionou. O maldito apito não para. Ah, lembrei: estão asfaltando a rua transversal, a uns 300 metros do meu apartamento. E eu escuto.
Pessoas falam. Alguém mexe a xícara de café, movimenta as mãos. Existem muitos sons que a maioria não percebe. E tem o entorno: os sons do prédio, da rua. Isso é avassalador, e acho que é por isso que usamos fones aqui em casa. As pessoas não entendem: acham que há silêncio quando há ruídos vindo de fora também. Minha casa está em silêncio, mas meu apartamento não fica no meio do nada. Tudo está, e tudo tem barulho, cheiro, cor, movimento.
A pesquisa já descreveu isso. Num estudo pequeno, em que adultos autistas responderam a um questionário, cerca de 94% tinham resposta sensorial em nível extremo em ao menos uma dimensão, com muita variação de pessoa para pessoa (Crane, Goddard e Pring, 2009).
Foi tentando compreender essa exaustão que comecei a perceber outros processos envolvidos nos encontros. Afinal, são mais pessoas. Mais conversas para acompanhar. Mais coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mais solicitações à minha atenção. E dividir a atenção é difícil para mim. Jesus, como é difícil! Por mais que eu goste da companhia de outras pessoas, uma conversa ou um encontro podem, sim, me deixar exausta.
E penso que esse é um dos grandes desafios de ser uma pessoa neurodivergente: às vezes, parece que o problema está na própria pessoa. Outras vezes, parece que está nos outros. Mas não é tão simples assim.
Tenho uma hipótese, ainda sem teste. Quando estamos todos conversando, eu acabo mantendo em algum lugar da mente tudo o que está acontecendo ao redor. Não consigo abstrair o que cada um está fazendo. Mesmo que não esteja focada, é como se eu não conseguisse deixar de perceber o entorno. O fundo está sempre ali. Isso é difícil e um pouco exaustivo. Eu penso que a maioria das pessoas entende o autismo como falta, e ele propõe excesso, pelo menos para o meu funcionamento.
Não sou a única a pensar em algo parecido. Laurent Mottron propõe que a percepção autista processa mais informação, com menos filtro automático (Mottron e colaboradores, 2006). Ele não estudou o cansaço depois de encontros; essa ligação é minha.
E é aqui que a hipótese ganha outro sentido. Se o fundo nunca desliga, talvez o tempo sozinha seja o único momento em que ele cai. O tempo sem fazer nada, que parece um detalhe, pode ser a parte central.
Um estudo com 92 adultos autistas, sobre o esforço de se encaixar socialmente, descreveu a exaustão como a consequência mais consistente e relatou a necessidade de tempo sozinhos para se recuperar (Hull e colaboradores, 2017). Não é exatamente o meu caso, mas o tempo sozinha aparece ali também.
Eu realmente desejaria um lugar isolado. Acho mesmo que necessito disso. Necessito ouvir o vento.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
(Alberto Caeiro, "A espantosa realidade das coisas", Poemas Inconjuntos, 7-11-1915)
Para ouvir o vento, é preciso silêncio.
Tive a sorte de estudar em uma escola silenciosa e de viver num ambiente muito silencioso, sem mil coisas a fazer sempre. Acordar, arrumar-se, ir para a escola, voltar, almoçar, ficar por entre as árvores do quintal. A TV só em determinado horário, e era ruim; então era melhor ler, desenhar, inventar algo, ouvir os pássaros. Depois lanche, banho, um pouco de TV, o pai chega, assinar os deveres, pedir a bênção e dormir. Lâmpadas quentes, pouca luz mesmo. Era quase uma penumbra, eu acho.
Não eram poucas adaptações. Era um ambiente inteiro.
Muita gente imagina que algumas poucas adaptações seriam suficientes para permitir que uma pessoa autista possa viver bem. E eu digo que não.
Eu penso que a posição neuroafirmativa é isso: incluir algo importante sobre o que naturalizamos sobre os ambientes.
Para mim, muitas vezes o vazio, o silêncio total e até o isolamento, visto de fora, é o que pode de fato regular um sistema nervoso que funciona de outro modo.
Escrito por mim, a partir de uma cena que vivi.



