
Sobre amanheceres, regulação e aquilo que vem antes dos livros
Eu estudo para entender o que o meu corpo já sabia.
O que acontece antes do dia começar
Acordei agora há pouco e levantei para pegar um café.
Quando cheguei na cozinha, percebi que o sol estava nascendo.
Eu não consigo ver o sol diretamente daqui, mas no outono o amanhecer tem uma beleza própria — há nuvens atrás do monte, tingidas em infinitos tons de rosa e púrpura. É um espetáculo silencioso, quase íntimo, que acontece antes de qualquer pressa.
Eu acordo todos os dias antes do nascer do sol.
Não porque preciso.
Não porque sou disciplinada.
Mas porque descobri — primeiro no corpo — que esses minutos mudam o meu dia de um jeito que nenhuma hora extra de sono consegue.
Não precisa ser muito tempo.
Não precisa ser perfeito.
Mas o nascer — e também o pôr do sol — fazem muito mais do que oferecer uma imagem bonita.
Eles me reorganizam por dentro.
Me devolvem ao dia como quem encontra uma porta aberta.
Um feriado que começa cedo
Hoje é feriado. Eu poderia estar dormindo.
Mas estou aqui, diante da tela, ouvindo o galo de alguém lá fora — sim, tem galos por aqui — e os pássaros que acabaram de acordar. O ar está fresco.
Às vezes eu respondo, quase brincando:
— bem-te-vi pra você também.
Eu paro. Respiro. Tomo o café olhando o céu.
E é suficiente.
Pequenos acontecimentos, grandes lembranças
Agora mesmo, sentada com a xícara na mão, vi um passarinho do outro lado da rua, bicando o chão com uma certa inocência.
Um pouco mais afastado, um gato à espreita.
Por um instante, senti medo.
Mas logo me lembrei: faz parte da natureza do gato caçar.
Fiquei ali, observando esse pequeno drama cotidiano — até que, de repente, o passarinho voou. E o gato ficou.
Estou rindo sozinha agora, imaginando a frustração do gato — enquanto o passarinho segue livre, capaz de voar outra vez.
Esses pássaros da manhã sempre me lembram disso:
o dia começa como um portal.
E, de algum modo, ainda é possível voar.
Mesmo que seja só nos pensamentos.
Olhar pela janela
Olhar a vida — a vida real — numa rua real, como diria Fernando Pessoa na Tabacaria.
Sempre me tocou profundamente a forma como ele fazia isso: escrevia e olhava pela janela.
Talvez porque eu também faça isso agora.
E talvez porque, como ele, eu também tenha conhecido essa sensação de que a máscara, quando a gente tenta tirar, parece já estar pregada ao rosto.
Mas ainda assim — ainda assim — há algo em mim que insiste em continuar sonhando.
Antes dos livros
Demorei anos para entender o que acontece nesses minutos antes do sol.
Na verdade, não comecei entendendo.
Comecei vivendo.
Há anos acordo antes do amanhecer porque algo no meu corpo já sabia que aquilo me regulava.
Depois vieram os livros.
O que a ciência confirma
Estudei a neurociência por trás disso.
Li sobre ciclo circadiano, sobre a importância da luz natural nas primeiras horas do dia, sobre o impacto disso no cortisol, no humor, na atenção.
Li que a exposição à luz da manhã sincroniza o relógio biológico.
Que prepara o sistema nervoso para o dia.
Que organiza.
E, para quem vive com TDAH ou autismo, essa sincronia é ainda mais fundamental.
Porque o sistema de regulação já trabalha com mais esforço — e o ciclo circadiano é um dos poucos suportes que não exige nenhuma ferramenta.
Só presença.
O caminho não foi esse
Mas o caminho não foi esse.
Eu não acordei cedo porque li um estudo.
Eu acordei cedo porque algo em mim sabia.
E então fui entender por quê.
O que perdemos
As pessoas costumam acreditar que a modernidade nos trouxe o melhor possível — controle do tempo, luz artificial, telas, horários que não precisam mais respeitar nada.
Mas tenho a sensação de que, em algo essencial, estamos piores.
Perdemos o ritmo.
Perdemos essa linguagem antiga do corpo:
o encontro entre luz e escuridão,
entre começo e fim,
entre vigília e descanso.
Não é hábito
Dormir mais nunca vai devolver ao meu corpo o que esses minutos devolvem.
Porque isso não é hábito.
Não é disciplina.
E certamente não é mania.
Para mim, é regulação.
O que ainda estamos aprendendo
E talvez seja isso que ainda estamos aprendendo a escutar:
o autocuidado real — especialmente em um sistema nervoso neurodivergente — não começa pela técnica.
Não começa pelo método.
Começa pelo que o corpo já encontrou, mesmo sem saber explicar.
E que, só depois, a mente aprende a nomear.
Eu estudo para entender o que o meu corpo já sabia.
Publicado no Substack em 21 de abril de 2026, na íntegra: abrir no Substack



